Opinião - Menos dedicação, mais diversão

Menos dedicação, mais diversão

Há algum tempo atrás, voltei a jogar LoL e, principalmente, DotA 2. Digo que voltei pois joguei bem pouco, quando LoL não tinha a fama atual e DotA ainda estava no beta, e me recusei a curtir mais por um simples motivo: não viciar de novo.

Claro que não era um vício de verdade, mas uma paixão bem forte, daquelas que batem e não querem mais largar. Aconteceu quando só o que existia era o Defense of the Ancients, um mapa para Warcraft III, que era mantido por, entre outros criadores de mapas, Icefrog, que é hoje um game designer contratado pela Valve. Esse mapa, criado despretenciosamente, tornou-se extremamente famoso. A coisa era tão boa e tão diferente que definiu um gênero: o Multiplayer Online Battle Arena, ou simplesmente o tão comum MOBA.

Loading DotA

Tela de carregamento de uma versão do mapa DotA

Não tenham raiva, pessoal. Vocês podem amar League of Legends, Heroes of Newerth, Smite e Strife, mas, sem DotA, dificilmente existiriam outros MOBAs. Milhares de pessoas ficavam online todos os dias para participar de centenas de partidas, muitas vezes uma após a outra. Eu era um deles.

Durante a faculdade, eu e meus amigos jogamos muito DotA. Claro que não deixei os outros jogos de lado, mas o dotinha sempre estava lá. Nas férias, havia dias que passávamos o dia inteiro jogando. Dormíamos e, quando acordávamos, já havia uma ligação ou mensagem de alguém dizendo que já estavam online, à espera pra quando eu entrasse no game. Ele era o nosso principal assunto quando saíamos de casa e nossa diversão quando estávamos nela. Desconhecidos tornavam-se nossos amigos por causa dele.

Aí, veio o dia em que o servidor que sempre estivemos não nos deixava mais entrar. A Blizzard começou uma caça aos servidores piratas e DotA começou a ficar inacessível para quem não queria gastar dinheiro pra jogar um mapa gratuito. Com isso, quem tinha acesso à Battle.net, mas preferia os piratas (por ter mais gente, por exemplo), teve que ir para o servidor oficial e o serviço parecia não estar preparado para a enxurrada de gente que migrou. Dificuldades para acessar e lags eram comuns, e isso começou a afastar o pessoal.

Battle.net

Tela da Battle.net no Warcraft III: The Frozen Throne, tão conhecida do jogador de DotA

Como eu jogava em um desses servidores com meus amigos, nós, como milhares de outras pessoas, só tínhamos duas soluções: pagar para continuar a jogar o mapa (e ter a dor de cabeça que todo mundo estava tendo) ou procurar outro MOBA. Optamos pela segunda.

Na época, não havia muita variedade. Além do mapa do Icefrog, existiam, essencialmente, Heroes of Newerth e League of Legends. Na época, os dois eram bem mais simples e LoL ainda estava muito longe de se tornar a febre que é hoje, mas era o que tinha. Os amigos começaram a se separar, cada um para um game. Eu deixei de jogar obras do gênero. Não tinha mais o mesmo ânimo, os mesmos amigos e, afinal, tinha uma graduação para terminar.

Assim como eu, o cenário avançou. Com mais pessoas nos outros títulos, eles cresceram melhor e mais rápido, novas desenvolvedoras viram o potencial do gênero e também criaram suas obras. O mercado estava cheio de títulos diferentes e divertidos e o pessoal escolhia seu preferido e começava a se dedicar a ele. O eSports começava a tomar uma maior forma em outros países e, em 2011, foi anunciado o Internationals, o primeiro campeonato de DotA 2 (que, na época, ainda estava em beta e poucas pessoas tinham acesso), com uma premiação de 1.6 milhões de dólares, uma quantia inimaginável para um torneio de games até então.

The Internationals 2014

O Internationals surgiu em 2011 e, neste ano, deu mais de 10 milhões de dólares em premiações

Com isso, todo mundo começou a ver os jogos como algo divertido e que pode dar lucro. Os jogos do cenário competitivo que existiam (FIFA, Street Fighter, Tekken, League of Legends e muitos outros) começaram a melhorar bastante e os que estavam por vir focaram ainda mais na competição. Os jogadores queriam competir e, por isso, dedicavam-se todos os dias. Histórias como as que podem ser vistas no filme Free To Play, da Valve, não são raras; muita gente teve problemas parecidos e, na época, o eSports não tinha a força e, principalmente, as premiações atuais.

Com todo mundo se “profissionalizando”, a cultura afetou até quem não pretendia fazê-lo. Para jogar com pros, você também tinha que ser e, assim, se dedicava mais ao jogo. Jogar com novato, nem pensar. O newbie virou n00b (com 2 zeros mesmo) e foi xingado, esculachado e marginalizado. Por fim, só restavam duas opções: esforçar-se o máximo possível para parar de ser xingado ou deixar de jogar, simplesmente. Isso não é restrito aos MOBAs; se faz presente em boa parte dos jogos competitivos, especialmente os que envolvem times.

Nesse meio tempo, eu resolvi voltar ao DotA 2, mas bem longe de jogar como antigamente. Agora, entro para me divertir e relembrar de como era legal reunir os amigos para uma (ou várias) partidinha. Há alguns minutos, a Steam me avisou que eu estou com mais de cem horas de jogatina. E então, eu lembrei que sou apenas nível cinco.

Ranqueamento em LoL

League of Legends classifica os melhores; os jogadores menosprezam os piores

Não jogo mais com os outros, pois não tenho mais paciência. Jogo para me divertir, não para ser alvo de chacota. Tenho trabalho, família e amigos para estar do lado; não quero ter que jogar várias partidas do dia para que eu tenha o mínimo respeito que TODOS deveriam ter. Não quero gritar por uma jogada errada e afastar alguém do game; alguém que poderia se tornar um grande esportista eletrônico, mas desistiu porque TODOS o xingavam quando dava os primeiros passos. Não preciso de mais uma coisa pra ter raiva.

Prefiro jogar com bots. Eles me desejam bom jogo e boa diversão sempre que vou começar uma partida.