Ragequit: a raiva no multiplay

Eis que chego em casa, depois de um dia estafante de trabalho, e tudo o que quero é relaxar. Preparo meu jantar, como e penso que “chegou a hora”. Sento-me em frente ao PC e começo a jogar um Warface, BF4 ou Dota 2. Pouco tempo depois, eu estou mais estressado do que quando cheguei em casa. Se você, meu amigo, passa por isso mais do que gostaria, já deve ter notado que, no fim, você é consumido pelo lado negro da Força, xingando tanto ou mais que os outros.

Nota: houve problemas com o post anterior que colocamos com esse texto, como, por exemplo, o não aparecimento da caixa de comentários do artigo. O problema foi devido à migração de nossos servidores, que deixou o site instável por alguns momentos. Dessa forma, resolvemos criar um novo link para o mesmo e apagamos o anterior. Para os que viram o anterior, pedimos desculpas. Obrigado.

[vimeo http://vimeo.com/25483143]

ATENÇÃO! Este artigo contém tantos palavrões quanto uma novela ou o programa do Ratinho, portanto, tire as crianças da sala (ou não).

Primeiramente, quero salientar que longe de mim querer fazer campanha contra o uso de xingamentos e blábláblá. Pelo contrário! Quem me conhece, sabe que eu xingo extravaso bastante. Então, por mim, vocês continuam falando o “foda-se” de vocês à vontade. O que eu quero dizer é que estamos presenciando (ou talvez só estejamos notando agora) a banalização da ofensa.

Hoje, todo mundo xinga. “Puta que pariu, filho de uma vadia, que porra! Vai tomar nesta merda de cu” é uma única frase, mas ultrapassa a cota de xingamentos diários de algumas pessoas. Aliás, nem chamarei de xingamentos, chamarei de extravaso. Foi-se o tempo em que falar um “bosta” era motivo suficiente pra sua mãe te dar um tapa na boca e te repreender.

Mas esse tipo de coisa já está no passado (exceto para os politicamente corretos, que xingam extravasam tanto ou mais do que nós, mas preferem posar de bons senhores para os outros) e isso pode ser visto diariamente. Você ouve “merda” saindo da novela das oito assim como ouve “porra” saindo da boca do seu pai (NÃO LITERALMENTE, PELAMOR!!!). Um exemplo clássico é uma propaganda do Fiat Punto, mostrada abaixo (e que chegou ao cúmulo de ter versão comportada em ALGUNS horários da TV).

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=hCXquhxGIeg]

Obviamente, esse caminho visto, seja em casa ou na TV, por alguém é ouvido, assimilado e ativado quando possível. Se o possível é a todo momento, ele é repetitivo e, por fim, banalizado. Algo nessa linha descrita está no que os filósofos chamam de determinismo. O determinismo, segundo Hyppolite Taine, crítico e historiador francês, “é a doutrina filosófica segundo a qual todos os fenômenos do universo são subordinados a leis e causas necessárias”, dentre essas leis, o determinismo do meio ou ambiente, que diz que o modo de pensar de alguém tem influência direta do meio em que vive. A título de comparação, sugiro o seguinte pensamento. Imagine que sua namorada/esposa/irmã vai à praia com você. Ela põe o seu melhor biquini e partem vocês para a praia. Agora, imagine se, ao invés de um biquini, fosse uma roupa íntima. Calcinha e sutiã. Por mais comportadas que fossem, imagino que o primeiro pensamento que viria à sua cabeça seria “pra onde ela vai com isso?”. É roupa? Sim. Cobre a mesma área do corpo? Sim (em tese, ao menos). Mas você nunca viu alguém de calcinha e sutiã na praia. O seu modelo mental lhe diz que mulher nenhuma vai de calcinha e sutiã pra praia. Praia é ambiente de biquini ou qualquer outra roupa de banho. Roupa íntima, não. Acho que você entendeu aonde quero chegar.

Entenda também que não estou colocando a culpa na sua família ou na TV (ou nos seus amigos ou até na sua vizinha chata). O determinismo é uma forma interessante de se pensar e raciocinar a respeito disso, mas, ao meu ver, a pessoa menos influenciável é menos afetada a isso. Mas isso é outro assunto. “Pô, mas por que raios você tá vindo falar disso, King? O que que tem a ver?”, você pergunta. E eu te respondo.

A partir do ponto em que você entende que o xingar extravasar está banalizado, você entende porque tem tanto ódio na Internet e essa é toda a questão deste artigo. Um estudo feito por pesquisadores chineses revela que a raiva se espalha mais rápido do que qualquer outra emoção na web, mas isso já não deveria ser novidade. É claro que temos muito do que ter raiva. Primeiro, porque é difícil não termos problemas, seja em âmbito geral ou específico – da corrupção brasileira ao nosso salário atrasado. Segundo, porque a gente tem a mania de pensar que a nossa vida não está tão boa quanto poderia estar. Já dizia o ditado: “a grama do vizinho é sempre mais verde”.

“EU TÔ PUTOOO!!!”

O que levanto aqui é a raiva pela raiva. É ofender pela razão de que pode ofender. E,  na Internet, ainda temos um agravante: o anonimato. Agrava porque, na Internet, você ofende porque pode ofender E NINGUÉM TE PEGAR POR ISSO. Ofender o healer porque não te curou ou xingar (nesse tocante, é xingar mesmo) todas as gerações da família de alguém por ser noob, tudo isso escondido por trás de um nick. E, mesmo que você não seja exatamente um anônimo, você sabe que ninguém vai até sua casa e te meter a porrada (a não ser que ele more perto, claro).

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=Yx3ISVBifM0]

O psicólogo John Suler, citado em um artigo do jornal inglês The Guardian, fala justamente sobre esse ódio no mundo gamer. Ele cita o que chama de efeito de desinibição online: a forma  que o anonimato no ciberespaço nos permite dizer e fazer coisas que não pensaríamos em fazer cara a cara. “De forma similar, a teoria controversa da desindividualização, que busca explicar porque pessoas normais tornam-se desregradas e violentas numa multidão, pode bem mostrar paralelos entre abusos no Twitter e o hooliganismo no futebol”, diz o artigo. Os abusos do Twitter que o texto cita referem-se às “críticas acaloradas” que Phil Fish (autor de FEZ) sofreu e às diversas mensagens de “carinho” enviadas ao diretor de game design da Treyarch, David Vonderhaar, ainda na época do Black Ops II, depois de ele anunciar que seu time fez “pequenos ajustes” no modo multiplayer. Mensagens desejando que a família dele fosse estuprada ou pegassem câncer foram apenas alguns exemplos. Essa questão, inclusive, me fez lembrar da notícia do pedido de demissão de Jennifer Hepler, agora ex-escritora da Bioware. Embora ela explique que esse pedido de demissão foi para seguir novos caminhos, ela revelou que sofria ameaças via email contra a vida dela e de seus filhos, após Dragon Age II.

Dane-se essa merda!Claro que não estou dizendo que aquele seu “filho da puta” dito pro seu amigo que acabou de jogar com você é o indício de que você o odeia com todas as suas forças e reflete o mal encarnado em todos os seres vivos. Repito: todo! mundo! xinga! Até aqueles que tentam evitar. O problema é quando o xingamento deixa de ser um desabafo e torna-se uma ofensa. Pior ainda, quando toda essa ofensa é carregada de raiva. O jogo tem, como principal propósito, a diversão. Quando você está com raiva, você não está se divertindo e quando você está ofendendo, você está acabando com a diversão dos outros, que podem acabar com raiva e tudo virar uma grande bola de neve.

Acha que tem muito ódio nos jogos online? E qual a maior raiva que já passou enquanto jogava? Não deixe de comentar aí abaixo e, se gostou do texto, não deixe de dar um like, ok? Até a próxima.

Links pra ler e pensar:

“Sou desenvolvedor e cansei de todo o ódio dos consumidores de games”, autor não revelado, divulgado pela Kotaku Brasil

Extravasar raiva na Internet não é uma prática saudável, de Elídio Almeida

How the Internet created an age of rage (Como a Internet criou uma era de raiva), de Tim Adams

A raiva na Internet ou desabafo da “lôraburra”, de Martha Mendonça

Internet rage, dissociation, and difficult consequences (Raiva na Internet, dissociação e consequências difíceis), de Olivia Grave